Serra do Espinhaço

18 de Setembro de 2020, Fabiano Ramos Costa

Diamantina, cidade onde se encontra a sede da UFVJM, se localiza em um território muito peculiar, a Serra do Espinhaço. O local, que tem sua parte sul iniciando em Ouro Branco, Minas Gerais e segue até a Chapada Diamantina, na Bahia,  representa o maior e mais contínuo cinturão orogênico pré-cambriano do território brasileiro, servindo como divisor de águas entre as bacias do rio São Francisco, Doce e Jequitinhonha. Bacias hidrográficas estas que drenam diretamente para o Oceano Atlântico. Boa parte do volume de águas que alimentam essas bacias, especialmente a do Jequitinhonha, vem de solos de turfeiras, muito presentes na região.

Foi ao longo da Serra do Espinhaço que a mineração, no período colonial se deu, e foi também nela, em consequência, que os núcleos urbanos mais importantes se formaram (Ouro Preto, Sabará, Serro, Diamantina e São João Del Rei, por exemplo). O patrimônio natural da Serra do Espinhaço, por sua vez, é extremamente diversificado e de natureza endêmica, o que fascinou ainda na época colonial diversos naturalistas que por aqui passaram, como Auguste de Saint Hilaire, Karl Friedrich Philipp von Martius, Johann Baptist von Spix, Wilhelm Ludwig von Eschwege entre vários outros que identificaram diversas espécies de plantas, animais e minerais e fizeram extraordinárias descrições da biodiversidade, da vida cotidiana e dos habitantes da América do Sul. A região ainda tem riquíssimas representações de habitantes locais desde épocas remotas, com diversos desenhos de plantas, animais e rituais que podem ser vistas nas inscrições rupestres dos períodos mais antigos da ocupação ameríndia, encontrados por toda extensão da serra.

O declínio da mineração, já no final do século XVIII, trouxe a necessidade de se encontrar outras fontes de sobrevivência e exploração econômica local. A agricultura despontou como uma das principais alternativas. A produção camponesa é a principal responsável pela dinamização econômica da maioria dos municípios da região, sendo as feiras livres, que ocorrem em praticamente todas as cidades e povoados, a sua maior expressão. Grandes áreas de plantios florestais também ocuparam a região das chapadas, formadas por extensas áreas planas, com altitudes entre 800 e 1.100 m, entremeadas por vales profundos.

A necessidade de preservação dos recursos naturais locais levou a região a ser declarada como reserva da biosfera pela UNESCO/ONU no ano de 2005 através do programa "O Homem e a Biosfera": http://www.unesco.org/mabdb/br/brdir/directory/biores.asp?mode=gen&code=BRA+06. Este é um programa científico intergovernamental estabelecido pela UNESCO no início dos anos de 1970, com o objetivo de melhorar a interação entre pessoas e o ambiente natural em que vivem, em escala mundial. As reservas da biosfera são locais para aprendizagem sobre desenvolvimento sustentável, que visam a conciliar a conservação da biodiversidade com o uso sustentável de recursos naturais.

O sistema de agricultura que se estabeleceu na Serra do Espinhaço, em consonância com as áreas protegidas, deu origem a outro título mundial para a região no ano de 2020, o de “Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial” (Sipam), concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) http://www.fao.org/news/story/pt/item/1265507/icode/. Nesta região de abrangência da UFVJM, vivem comunidades rurais tradicionais que, ao longo de séculos, realizam a coleta de flores sempre-vivas e frutas e mantêm o cultivo ancestral de espécies vegetais e criação de animais. Nesse local, em uma interação única entre humanos e natureza, comunidades têm sobrevivido pelo extrativismo vegetal por gerações no Brasil. A manutenção de centenas de famílias que dependem dessas plantas tem apelo universal; por outro lado, pesquisas apontam a fragilidade do sistema e perda de biodiversidade, mostrando a imensa responsabilidade das pesquisas da UFVJM para orientar e gerar tecnologias de convivência dessas populações com seu ambiente.

Em um cenário de mudanças climáticas globais, espera-se que as regiões de altitude revelem as primeiras alterações no ambiente. A identificação, catalogação e registro das espécies de insetos presentes na Serra do Espinhaço e nas áreas demarcadas como Reserva da Biosfera e Sipam pela ONU poderão servir de testemunho para mudanças locais. Os insetos são ótimos bioindicadores e sua ocorrência e números populacionais são dependentes de condições específicas, respondendo rápido às alterações. Ainda será possível com este projeto detectar a presença de espécies exóticas e invasoras na região, e os impactos que tais espécies podem provocar em organismos autóctones.

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